Goemon – fácil de amar e, pelo visto, fácil de odiar

A notícia de que pessoas próximas a mim, pessoas que eu considero, pessoas de quem eu gosto, declararam odiar o Goemon caiu sobre minha cabeça como uma bigorna de desenho animado.

Como assim, tem gente que não gosta do Goemon?

Desde a primeira vez que me mudei pro Sudoeste em 2004, esbarrei nesta casa nipônica escondida nos confins da CLSW 105. O que alguns amigos chamaram de lugar sem graça, eu achei o cúmulo do original. Era um lugar que poderia estar no Japão, porque, vamos combinar, ter um monte de referências japonesas na decoração e servir sushi de cream cheese com acelga e Doritos é uma contradição em termos. Nada contra uma decoração mais chamativa, mas pode reparar que a maior referência de qualidade na cidade – New Koto – é outro que não fica colocando enfeites e decorações nipônicas óbvias ou exageradas.

Assim, o Goemon me lembrou lugares que, sim, eu só vi em programas de culinária, como do Anthony Bourdain e do careca do Comidas Exóticas, cujo nome eu esqueci, mas que me evocou, na hora, uma vontade de saber se aquela despretensão escondia maestria. E, para mim, a aposta foi ganha.

Enquanto locais cobravam o olho da cara para servir comida japonesa toda californizada, com anúncios que falavam mais dos arquitetos dos restaurantes do que da comida, eu aprendi que toda e qualquer vez que eu fosse ao Goemon eu poderia comer o mesmo prato que ele viria igual toda vez. Um acalento para quem já viu que, em Brasília, às vezes você apaixona por um restô e quando volta lá duas semanas depois, fica se perguntando se tinham colocado um LSD na sua bebida, que te deixou numa trip fantástica e que te fez ter a ilusão de que a comida estava ótima.

Lamén, teishoku, combinados, entradas como lula com molho de gengibre, sunomono, missô, enfim, os clássicos que você quiser da culinária mais tradicional e despretensiosa do Japão você encontra no Goemon, executadas com constância invejável.

AÍ, tem o buffet. Bom, quando eu conheci o buffet, eu amei. Mas muita gente criticou. Chamou de sem graça também, de feio, coberto com papel filme. Eu confesso que sempre fico longe dos espetinhos e de uma sopa com ovos que, apesar de tradicional, nunca me fisgou. E, sim, é um buffet quase que caseiro. Mas, de novo, eu acho que a comparação com locais como Kojima, o antigo e fechado Yujin, o Sushi San, entre outros, é que quebra as expectativas e pernas do novato que chega no Goemon e vê aquela simplicidade, aquela televisão e o buffet, bem simples.

O que eu amo disso tudo que tem no restaurante é ter a sensação de que, após mais de uma década frequentando, estou chegando na casa de amigos, onde a proprietária e queridíssima Elise me fala que as meninas estão enormes e eu comento que os filhos dela também. Aquela televisão que chamaram de brega é a distração dos filhos dos donos que almoçam, fazem dever de casa e convivem naquele espaço constantemente. Por isso me ofendem as críticas, porque parece que estão falando mal da casa e da comida de amigos meus que eu sei fazem tudo com o maior carinho.

Foto descaradamente roubada do Blog de Nós Dois, mas só porque sei que eles amam como eu.

Assim, para quem não quer nada californiano, nem badalado, nem cheio de referências sobre o decorador top e o arquiteto mara, vá ao Goemon. Dispense o buffet, talvez, e peça um Teishoku de Tonkatsu (lombo à milanesa), para saber o que é um PF japonês. Há ainda opções deliciosas com tempurá de camarão, guiozá, robalo e anchova; peça um par de sushi de ovas de massagô; cure sua ressaca com o sukiyaki; esquente seu inverno com o Udon. Enfim, vá de coração aberto à comida e às pessoas, pois eu afirmo e repito: vale a pena amar o Goemon.

PS: Amanhã é o último dia do Festival do Japão e eles e outros tradicionais restaurantes e famílias japonesas estarão participando.

11 comentários sobre “Goemon – fácil de amar e, pelo visto, fácil de odiar

  1. Adorei o post. Penso EXATAMENTE como você. Lugar despretensioso mas TÍ-PI-CO japonês , de raiz, sem cheetos e afins.
    Eu, como boa paulistana, cresci comendo na Liberdade em SP. E às vezes tenho pavor de umas misturas malfeitas de casas “chiques”. Contemporâneo é uma coisa, agora misturação aleatória é outra coisa. Sushi com arroz, queijo e goiabada? Pelamor! E ainda bem que tem alguém que escreve a real, sem medo de ser feliz ( e criticada, porque a sinceridade é muito criticada, infelizmente…. há quem prefira ser enganado , né? ).

    Bjks e vai firme garota!

    1. Nooooossa, quando conheci o Sendai na Liberdade eu quase morri de amor! A diferença do japonês tradicional para o californiano, e agora abrasileirado, é muito grande. Até rola um cream cheese com salmão, mas sushi de morango, cereja ou romeu e julieta me matam! Valeu pela visita! 😀

  2. O ambiente do Goemon pode ser bacana e ele de fato tem um ar de autenticidade, mas na minha opinião falta um pouco de qualidade. O Yuzu-an e o New Koto são muito superiores ao Goemon, na minha opinião. Outro japonês que parece autêntico é o Miwa, no Setor Bancário Sul. Mas o buffet deles deixa um pouco a desejar. O takoyaki, por outro lado, não deve em nada aos q se come no Japão.

    1. Eu até concordo, Bruno, que o Goemon poderia dar um “up” depois desses anos todos, mas ele ainda atende um nicho de comida japonesa tradicional e mais acessível, eu acho. Eu também amo Yuzu-an e New Koto. 🙂

      1. O que me incomoda lá nem é o ambiente, que acho até legal. Prefiro mil vezes um japa de raiz e decoração simples do que um super decorado com sushis que levam 500 ingredientes, todos com o mesmo gosto de meolho teriyaki. O problema do Goemin, da última vez que fui lá, foi a qualidade dos peixes mesmo, principalmente do peixe branco, que estava muito fibroso e pouco fresco. Já provei alguns pratos quentes e gostei, mas nada de excepcional. Gostaria de gostar mais do Goemon. Vamos ver se da próxima vez eu me dou melhor por lá. 🙂

          1. Verdade! Os pratos quentes são de fato melhores que o sushi. Vou pedir o teishoku da próxima vez! Sou meio chato com restaurante japonês, pq o meu pai é dono de um dos melhores do Brasil. O nome é Mitsuba, se um dia vc tiver coragem de conhecer… 😉

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